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TDAH não é falta de esforço: é um cérebro tentando se regular desde o início do desenvolvimento

Atualizado: 9 de fev.


Quem convive com o TDAH, seja na infância, adolescência ou vida adulta, costuma carregar um peso silencioso: a sensação de que está sempre devendo algo.

 

“Você precisa se esforçar mais.”

“É só prestar atenção.”

“Você é inteligente, mas não se organiza.”

 

Essas frases machucam porque não explicam o que realmente acontece.

 

A ciência é clara:

👉 o TDAH não nasce da preguiça, da falta de vontade ou de falhas morais.

👉 Ele nasce de como o cérebro se desenvolve e aprende a se regular ao longo da vida.

 

A origem científica do TDAH: o problema nunca foi a atenção isolada. Historicamente, crianças inquietas e impulsivas foram vistas como desobedientes ou indisciplinadas. Somente no início do século XX surgem as primeiras descrições médicas, como as de George Still, apontando algo essencial: essas crianças não tinham déficit intelectual e o principal problema era a dificuldade de autocontrole e inibição do comportamento.

 

Ou seja, desde a origem, o núcleo do TDAH não era “não prestar atenção”, mas não conseguir frear, sustentar e organizar respostas. Décadas depois, com o avanço da neuropsicologia e da neurociência, esse entendimento se consolida: o TDAH passa a ser reconhecido como uma condição do neurodesenvolvimento, associada a alterações nos circuitos cerebrais de autorregulação.

 

Desenvolvimento cerebral, estresse e desorganização interna

 

A neurociência do desenvolvimento demonstra que o cérebro não amadurece sozinho. Como descreve Bruce D. Perry, funções executivas como: atenção sustentada, planejamento e controle inibitório, dependem de experiências repetidas de segurança, previsibilidade e co-regulação.

 

Quando o cérebro se desenvolve em contextos de estresse crônico, trauma relacional e/ou ambientes pouco reguladores, o sistema nervoso tende a se organizar em modo de sobrevivência. Um cérebro em alerta não prioriza foco, planejamento ou autocontrole. Ele prioriza reagir. Esse padrão ajuda a explicar por que, no TDAH, observamos: distração persistente, impulsividade, dificuldade de sustentar esforço mental e intensa desorganização interna.

 

Funções executivas: quando o impulso chega antes do freio

 

A ciência contemporânea reforça que o TDAH é, sobretudo, um transtorno da autorregulação. Segundo Paulo Mattos, há comprometimento dos mecanismos de:

 

·       controle inibitório,

·       regulação emocional e

·       manutenção do esforço atencional.

 

Na prática, isso significa que o impulso frequentemente antecede a reflexão.

 

A pessoa sabe o que precisa fazer, mas o cérebro não consegue sustentar esse controle de forma consistente. Complementando esse olhar, Malloy-Diniz descreve o TDAH como uma condição marcada por prejuízos nas funções executivas, incluindo: planejamento, tomada de decisão, monitoramento do comportamento e organização emocional.

 

👉 Não é desinteresse.

👉 Não é falta de capacidade.

👉 É um sistema executivo que falha sob demanda.

 

Atenção exige segurança, não cobrança. A Teoria Polivagal, de Stephen Porges, reforça um ponto fundamental: atenção sustentada só é possível quando o sistema nervoso está regulado. Estados de hiperatividade, inquietação ou dispersão não indicam “excesso de energia”, mas frequentemente um organismo em estado de alerta ou defesa.

 

📌 Cobrança excessiva não regula o cérebro.

📌 Pressão não organiza funções executivas.

📌 Segurança fisiológica e relacional, sim.

 

Neurofeedback: treinando o cérebro para aprender a se regular

 

Dentro dessa compreensão neurobiológica, relacional e regulatória, o neurofeedback surge como uma abordagem complementar baseada em evidências científicas. O neurofeedback é um treinamento cerebral com EEG, no qual o cérebro recebe feedback em tempo real sobre sua própria atividade elétrica e aprende, gradualmente, a:

 

·       reduzir padrões de hiperativação ou lentificação,

·       fortalecer circuitos ligados à atenção,

·       melhorar o controle inibitório e a regulação emocional.

 

Estudos indicam melhora em:

✔ atenção sustentada

✔ controle inibitório

✔ regulação emocional

✔ redução da impulsividade

 

De forma ética e responsável, é essencial destacar que o neurofeedback não é uma cura isolada, mas um recurso que potencializa psicoterapia, intervenções psicoeducativas e, quando indicado, tratamento medicamentoso.

 

Um novo olhar: menos culpa, mais ciência. Quando compreendemos a origem científica do TDAH, algo muda profundamente:

 

❌ Não é falta de esforço,

❌ Não é falha de caráter e

❌ Não é problema de educação.

 

✔ É um cérebro que se desenvolveu com dificuldades na autorregulação.

✔ É um sistema nervoso que precisa aprender novos padrões de organização.

✔ É uma condição que exige intervenções baseadas em ciência, não em julgamento.

 

O TDAH não pede cobrança. Pede compreensão, método e treino adequado. E quando o cérebro aprende a se regular, o comportamento muda como consequência, não por imposição, mas por reorganização neural.

 

 

Referências

  • Arns, M., Heinrich, H., & Strehl, U. (2014). Evaluation of neurofeedback in ADHD. Neuroscience & Biobehavioral Reviews.

  • Conselho Federal de Psicologia – orientações sobre práticas baseadas em evidências e ética profissional.

  • Malloy-Diniz, L. F., Fuentes, D., Abreu, N., & Cosenza, R. M. (2014). Avaliação neuropsicológica. Porto Alegre: Artmed.

  • Malloy-Diniz, L. F., & Borges, M. C. (2018). Funções executivas e autorregulação: implicações clínicas. In: Fuentes, D. et al. Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed.

  • Malloy-Diniz, L. F., Sedó, M., Fuentes, D., & Leite, W. B. (2008). Neuropsicologia das funções executivas. Revista Neuropsicologia Latinoamericana, 1(1), 1–16.

  • Mattos, P. (2015). No mundo da lua: perguntas e respostas sobre transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). São Paulo: Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA).

  • Mattos, P., Rohde, L. A., & Polanczyk, G. (2012). O TDAH é subdiagnosticado no Brasil? Revista Brasileira de Psiquiatria, 34(4), 487–489.

  • Mattos, P. (2006). Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): diagnóstico e tratamento. Revista Brasileira de Psiquiatria, 28(Supl. 2), S50–S56.

  • Perry, B. D. (2006). Applying Principles of Neurodevelopment to Clinical Work with Maltreated and Traumatized Children.

  • Perry, B. D., & Szalavitz, M. (2017). O menino criado como um cachorro.

  • Porges, S. W. (2011). The Polyvagal Theory.

  • Siegel, D. J. (2010). Mindsight: The New Science of Personal Transformation.

  • Siegel, D. J. (2012). The Developing Mind.

 
 
 

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