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Neurociência, Evolução e Saúde Mental: o que a história humana revela sobre nossas emoções, traumas e a violência


Você já se perguntou por que reagimos com medo, raiva ou culpa em determinadas situações? Essas emoções, que moldam nossas decisões e relações, não são apenas respostas psicológicas; elas são também marcas da nossa história evolutiva. Isso ocorre pois há milhões de anos que o cérebro humano se desenvolve como uma ferramenta de sobrevivência. 


Da sobrevivência à sociabilidade

Ao descer das árvores e viver em grupos, nossos ancestrais precisaram criar estruturas sociais e laços de solidariedade. O medo, a raiva e a tristeza deixaram de ser apenas reações individuais e passaram a organizar os comportamentos coletivos: quem proteger, quem evitar, com quem se aliar. Essa combinação de neuroquímica e interação social está no cerne daquilo que chamamos hoje de neurossociologia, um campo que une neurociência, sociologia e psicologia para entender como o cérebro e a cultura se influenciam mutuamente ao longo da existência humana.


Emoções, trauma e violência extrema

Em seu estudo no Campo de Refugiados de Kakuma e no Assentamento de Kalobeyei, no Quênia, a pesquisadora Jucéli Krüger observou o modo como emoções intensas (vergonha, raiva e medo) se interligam em contextos de violência extrema. Essas emoções, quando somadas a traumas coletivos e condições sociais precárias, criam um ciclo neuroemocional que alimenta conflitos, fragiliza identidades e afeta profundamente a saúde mental das pessoas envolvidas e, também, das gerações futuras através de comportamentos aprendidos e alterações epigenéticas.


O cérebro humano reage à violência não apenas com sofrimento psicológico, 

mas também com respostas neurobiológicas duradouras.”


O cérebro social e a saúde mental

A neurociência moderna mostra que as emoções são processos corporais reais, sustentados por circuitos cerebrais específicos. Áreas como a amígdala, o córtex pré-frontal e o sistema límbico determinam como sentimos empatia, raiva ou medo. Mas esses mesmos circuitos também são moldados pelo meio: nossas relações sociais, cultura e experiências traumáticas.


Entender isso é essencial para a saúde mental contemporânea. Depressão, ansiedade e transtornos de estresse pós-traumático não são apenas “problemas da mente”, mas respostas adaptativas que se tornaram disfuncionais diante de contextos sociais e emocionais extremos.


Uma visão integrada: neurociência e humanidade

A Neurossociologia propõe um olhar integrador: não há separação entre o biológico e o social, entre o cérebro e a cultura. Para promover saúde mental real, precisamos compreender como as experiências individuais estão conectadas à história evolutiva e às condições sociais que moldam nosso comportamento. Como diz Jucéli Krüger: “nossos pensamentos são reais. Eles enviam sinais elétricos pelos nossos cérebros, que influenciam cada célula do corpo.” Cuidar da mente, portanto, é cuidar também do corpo, das relações, da sociedade que construímos e principalmente: cuidar do futuro.


Fonte:

KRÜGER, Jucéli Silva. Como chegamos a “Lugar Nenhum”: reflexões neurossociológicas (dos fenômenos emocionais) nas relações de violência extrema no Campo de Refugiados de Kakuma e no Assentamento Integrado de Kalobeyei, Quênia (1992–2022). 2023. Tese (Doutorado em Ciências Humanas) — Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2023.

 
 
 

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